“É falta na entrada da área Adivinha quem vai bater? É o camisa 10 da Gávea,(…) O galinho de Quintino chegou Ôh-ôh, ôh-ôh-ôh” Jorge Ben Jor ‧ 1976
É natural pensar que ao ver um banner de um filme documentário que retrata a vida de Arthur Antunes Coimbra, o Zico, veríamos um filme sobre a ascensão do jogador no Flamengo. No entanto, Zico não foi apenas um jogador do clube carioca, mas atuou e atua em diversas frentes do futebol até hoje.
OK, mas sobre o que mais um filme do Zico falaria?
A história do galinho de Quintino é amplamente conhecida por todos no Brasil, talvez até seria repetitivo se o filme focasse apenas em reprises jornalísticas, mas aqui vemos uma construção de narrativa diferente da convencional.
Para começar, o filme não inicia contando exatamente do inicio de sua trajetória, mas sim do final quando ele está iniciando sua história no Japão. Ok, então o filme acontece de trás para frente? Não, não é por ai, na verdade o que o diretor deseja não apenas te mostrar quem é o Zico, mas te contar quem é o Arthur de uma forma mais pessoal, saber das suas manias, mantras, te colocando ao lado da família para vivenciar sua trajetória sabendo de tudo isso.
A pergunta “por que o Zico foi para o Japão no final de sua carreira” é usada no inicio do documentário para estabelecer um pivô e ai sim voltarmos ao início da história para no final ela ser respondida com a narrativa.
O filme conta muito sobre a disciplina do camisa 10, fala sobre o seu respeito para com os torcedores do seu clube e até mesmo para com os rivais, inclusive mostra que os “maiores jogadores” Pelé e Zico tinham isso em comum. Quando perguntados sobre respondiam o motivo: Educação. Sim, aquela que vem de berço.
João Wainer, o diretor do filme, inclusive brincou durante a coletiva ao ser perguntado sobre o “samurai” no título do filme.
“Eu tenho uma teoria, que não está no filme, estou falando por mim, mas que me ajudou a construir essa história, é que o Zico era um Japonês que reencarnou em Quintino com a missão de aprender futebol e levar de volta para a terra dele (…) ele é tão correto no modo de ser, tão correto com horários”
Além de tudo isso, vemos o lado família dele. Vemos a história de todos em volta do Zico, sua mãe, seus irmãos, seu pai, esposa, filhos e netos e em como sua carreira afetou um pouco a criação dos filhos, já que ele não tinha tanto tempo em casa, no entanto, mesmo assim, buscava ser um pai presente, hoje avô ainda mais presente.
O documentário retrata toda a escalada vitoriosa da vida de Zico, no Flamengo, Itália e Japão, mas não deixa de contar das partes tristes da vida do protagonista, como na perda de um “irmão” Geraldo Assoviador, em 1976, ou da sua lesão do joelho e nas derrotas em copa do mundo com a seleção brasileira, nos aproximando ainda mais do lado humano do jogador ao mostrar em como isso o afetou.
O diretor contou que muitas partes do filme, infelizmente, tiveram de ser cortadas para caber no tempo de tela, então vemos pouco da fase do Zico como treinador na Turquia e da seleção japonesa com pequenas pinceladas no final do filme.
A estética e o documentário
O estilo documentário é uma produção artística, via de regra um filme, não-ficcional, que se caracteriza principalmente pelo compromisso da exploração da realidade, entretanto, isso pode ser feito em diversos estilos diferentes.
Neste, vemos um documentário de caráter participativo, Cinéma Vérité/Observacional: onde vemos os personagens conversando entre si, de uma forma natural dentro de um espaço controlado com diversos elementos que provocam a conversa, como troféus, camisas e objetos de arquivo pessoais do Zico, se distanciando dos “talking heads” que é um formato mais comum nesse modo.
Ao mesclar as conversas com imagens reais de arquivo temos uma construção muito boa de narrativa que nos leva através do tempo, nos fazendo ter todo o tipo de sentimento.
De acordo com João Wainer, a produção do filme utilizou muito de tecnologia de inteligência artificial para melhorar imagens antigas do canal 100 e da TV Globo para a tela de cinema, dando um outro vislumbre com um upscale muito bem feito. Além disso, para melhorar o som das imagens antigas que estavam em mono, chamaram a torcida organizada raça rubro-negra para regravar todos os instrumentos e cantos de torcida da época, para dar a sensação de imersão cinematográfica.
Durante a coletiva de imprensa o diretor também destacou a importância de fazer um filme sobre o Zico sem ser um torcedor do Flamengo.
“Eu consegui trazer esse olhar do Zico, esse arco narrativo que a gente construiu com Japão e tudo isso, porque, como eu sou santista, sou ziquense e santista, eu tenho um olhar diferente um pouco menos apaixonado que de um flamenguista que às vezes não consegue olhar para o Zico de uma forma que não seja a narrativa clássica do Flamengo.”
Conclusão
“Zico – O Samurai de Quintino” vai além de uma biografia. O filme redefine nossa visão dele, oferecendo um retrato íntimo, sincero e complexo de Arthur, homem por trás do ícone. O diretor João Wainer entrelaça narrativas com maestria, restaura imagens de arquivo com cuidado e nos conduz pela vida doméstica, pelos rituais e memórias de Zico. Essa abordagem eleva a experiência além de uma simples reportagem de TV ou vídeo online.
Estréia dia 30 de abril.
Trailer:
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Leonardo Lima
Jornalista, Designer Gráfico e Motion.
Busco crescer e fazer o melhor com o conhecimento adquirido! E que a força esteja com a gente!