Menos esquete, mais dedo na ferida. Série da Netflix retorna disposta a testar os limites do humor com relações humanas à beira de um ataque de nervos.
Sabe aquela sensação de rir com as mãos cobrindo metade do rosto, temendo o desastre iminente? É exatamente essa a tônica que dita o retorno de As Quatro Estações do Ano. A série encabeçada por Tina Fey finalmente encontrou seu ritmo ideal em uma segunda temporada que abandona qualquer pudor de ser puramente ácida. Se no primeiro ano ainda havia uma tentativa quase tímida de equilibrar carisma e cinismo, agora a balança quebrou de vez. E o resultado é brilhantemente incômodo.

A comédia dramática da Netflix acompanha aquele velho núcleo de casais e amigos de longa data cujas férias sazonais servem de palco para o colapso de suas próprias convenções sociais. É uma panela de pressão burguesa temperada com a genialidade de roteiro que já esperamos de Fey. Só que aqui o clima não é de sitcom. A câmera está mais perto, os silêncios duram mais e as piadas machucam para valer.
O grande mérito desta nova leva de episódios é a coragem de ser antipática, a produção brilha justamente por não tentar redimir seus personagens. Fey entrega uma verdadeira aula de roteiro ao transformar neuroses de meia-idade e ressentimentos acumulados em entretenimento de ponta.

A dinâmica do elenco está muito mais afiada, e a química entre eles não nasce do afeto, mas da bagagem tóxica compartilhada. As interações nos jantares de férias e nos passeios que invariavelmente dão errado lembram um campo minado onde cada frase passivo-agressiva é disparada com precisão cirúrgica. É um desconforto que vicia. Você sabe que a situação vai escalar para um vexame social absoluto em questão de minutos, mas é impossível desviar o olhar do engavetamento emocional.
A fronteira invisível entre o riso e a terapia
E aí vem o problema. Ou melhor, o que vai afastar o público casual. O nível de tensão dramática desta temporada é tão constante que a série muitas vezes esquece de deixar o espectador respirar. Em certos momentos da metade da temporada, a exaustão dos personagens vaza para o outro lado da tela, criando uma experiência quase claustrofóbica.
Além disso, algumas tramas secundárias nitidamente giram em falso. Há arcos que começam com um potencial absurdo, mas terminam resolvidos de forma apressada e conveniente, como se o roteiro lembrasse na última hora que precisava empurrar a história principal para o feriado seguinte. Nem tudo no roteiro é impecável, e alguns personagens que mereciam mais aprofundamento acabam reduzidos a escadas pontuais para os ataques de fúria dos protagonistas.

O White Lotus da amizade
Ainda assim, é inevitável traçar paralelos com o atual estágio da televisão de prestígio. As Quatro Estações do Ano bebe direto da fonte de produções como The White Lotus no quesito “pessoas ricas sendo terríveis em cenários paradisíacos”. No entanto, o texto de Fey substitui o choque de um assassinato misterioso por algo muito mais palpável e letal: a morte lenta e silenciosa das amizades por conveniência. Tem a acidez calculada de Succession, lidando não com aquisições corporativas, mas com a fragilidade do ego no convívio a portas fechadas.

Isso dá à série um enorme potencial de viralização. Os monólogos brutais sobre envelhecimento, hipocrisia e expectativas frustradas já nascem prontos para dominar os recortes no TikTok. É uma obra feita sob medida para gerar debates exaustivos logo após os créditos subirem.
As Quatro Estações do Ano consagra-se como uma prova de resistência para o espectador contemporâneo. Tina Fey assina uma obra que recusa o conforto acolhedor em prol de uma verdade nua, crua e incrivelmente engraçada. Não é uma viagem agradável e seus companheiros de jornada são, em muitos momentos, insuportáveis. Mas quando a temporada acaba, a única coisa que você realmente deseja é renovar o passaporte para viajar com eles mais uma vez.



