Esqueça as explosões dramáticas ou as grandes reviravoltas de roteiro. No novo lançamento da editora Ipê das Letras, o perigo mora no Excel, no café frio e na pressão invisível de ser “sempre produtivo”. “O Analista“, romance de estreia de Túlio Drummond, chega às livrarias como um espelho incômodo, mas necessário, para quem vive equilibrando KPIs e saúde mental.
O livro mergulha na mente de Jonas, um analista de dados de uma grande farmacêutica. Ele é o retrato do profissional perfeito: eficiente, controlado e funcional. Mas, como o código de um programa que começa a apresentar bugs discretos, a vida de Jonas passa a sofrer pequenas fissuras sob o peso do esgotamento emocional e dos dilemas éticos da alta performance.
Quando o “modo Turbo” vira o vilão
Em um mundo onde o burnout virou quase um crachá de honra, Drummond escolhe um caminho mais sutil e psicológico. A narrativa não foca em um colapso explosivo, mas sim no acúmulo mental. É aquela exaustão que se infiltra na rotina, transformando o ato de sustentar uma identidade em algo muito mais complexo do que bater metas trimestrais.
Jonas não é um herói de ação, nem um vilão corporativo. Ele é, segundo o próprio material da obra, o “homem contemporâneo funcional”. Alguém treinado para administrar sistemas complexos e dados globais, mas que se vê completamente despreparado para lidar com o caos da própria subjetividade.
Do universo dos dados para as páginas
O autor não caiu de paraquedas nesse cenário. Túlio Drummond traz para a ficção o peso de sua própria vivência técnica em dados e negócios globais. Após três anos de escrita disciplinada e um repertório de mais de 300 leituras, ele debuta com uma prosa que evita modismos e foca na observação minuciosa.

A obra se junta a um movimento crescente na cultura pop, que vemos em séries como Severance (Ruptura) ou nos textos de Byung-Chul Han, que questiona o custo humano da eficiência máxima.
O que esperar de “O Analista”:
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Narrativa Psicológica: Foco total no fluxo de pensamento e na construção interna do personagem.
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Cenário Brasileiro: Uma trama ambientada no Brasil, trazendo as nuances do mercado de trabalho local.
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Sem Respostas Prontas: O livro não é um manual de autoajuda ou um manifesto contra o trabalho; é um convite à observação sobre os limites do autocontrole.
Sobre a Ipê das Letras
Com operações no Brasil e em Portugal, a Ipê das Letras reforça seu compromisso com a bibliodiversidade. O selo tem se destacado por dar voz a novos autores que discutem as subjetividades do tempo presente, tratando o livro não apenas como produto, mas como experiência estética e crítica.
Curtiu a proposta do livro? Se você se identifica com os dilemas do Jonas ou adora um bom drama psicológico no estilo Black Mirror, essa pode ser sua próxima leitura favorita.



