[CRÍTICA] Coisa Mais Linda | Nova série brasileira da Netflix traz temas atemporais em ritmo de bossa nova

Empoderamento feminino, sororidade, aborto, violência contra a mulher, racismo, igualdade de gênero, feminismo negro x feminismo branco, feminicídio e bissexualidade estão em voga na mais nova produção nacional da Netflix.

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— Lugar de mulher é na cozinha!
— A única utilidade de uma mulher no âmbito profissional é enfeitar o ambiente.
— Cantar? Dançar? Atuar? Isso é coisa de mulher da vida!
— Mulher que se preze não pode se dar o direito de tomar atitudes sem a permissão do marido!
— Foi estuprada? É porque mereceu! Afinal, quem mandou andar sozinha, numa rua escura, uma hora dessas e ainda por cima, usando esse tipo de roupa? Mulher tem que se dar o respeito, onde já se viu!?

Essas frases, num primeiro momento, podem assustar e até mesmo causar repulsa. “coisas de novela de época”, podem pensar alguns. Só que infelizmente, esse tipo de pensamento (mesmo entre mulheres) e consentimento social acerca de machismos tão enraizados são ainda muito comuns nos dias de hoje.

As temáticas trabalhadas em Coisa Mais Linda, nova série brasileira exibida no catálogo da Netflix, são discutidas diariamente, principalmente nas mídias sociais.

Basta dar uma olhada rápida no twitter ou checar as notícias do dia, que mais um caso de assédio, desigualdade salarial entre homens e mulheres, aborto, feminicídio, violência contra a mulher, racismo, dentre outros de cunho polêmico, estarão na boca do povo gerando debates cada vez mais extremistas e polarizados.

Portanto, apesar de ser uma série retrô, mais especificamente, do final dos anos 50 e início dos anos 60, não é uma série presa no tempo. Muito longe disso. Sendo sua maior qualidade justamente seu caráter atemporal.

Com direção de Heather Roth e Giuliano Cedroni, Coisa Mais Linda tem como protagonista Malu (Maria Casadevall), uma paulista que ao ser abandonada pelo marido pilantra, decide permanecer no Rio de Janeiro e contra a vontade de seu pai, realizar seu maior sonho; abrir um restaurante de música ao vivo.

Para isso, conta com a ajuda de Adélia (Patrícia Dejesus), uma mulher negra que sempre teve uma vida dura, mas nem por isso se permitia ser derrubada pelas circunstâncias. Ela que dá a força necessária para a outra se reerguer e não cair na vitimização.

Inclusive, uma das melhores cenas da série é quando ao ver que seu sonho corre risco de não ser concretizado, Malu se coloca no papel da mulher sofredora, aquela que tem mais problema do que todo mundo, gerando um embate lindo entre as duas e levantando a discussão sobre a diferença entre o feminismo branco x feminismo negro.

Afinal, é claro que a situação da protagonista não estava sendo nada fácil. Porém, apesar de ser mulher e sofrer todos os preconceitos e limitações decorrentes do machismo e da sociedade patriarcal, ela é uma mulher branca e tem todos os privilégios que estão associados a cor da pele.

Para uma mulher negra, o preconceito é muito maior e mais cruel. Isso que Adélia faz questão de deixar claro tanto para a amiga, quanto para o público que ainda não tinha refletido e compreendido a fundo essa questão (me incluo nessa).

Adélia tinha que se sujeitar aos abusos de sua patroa que a tratava como um lixo. Não permitindo nem mesmo que ela usasse o elevador social por ser faxineira e negra.

As diferenças entre homens e mulheres dentro de um ambiente de trabalho é outra temática forte na série. Através de Thereza (Mel Lisboa) podemos ver como a mulher tinha que ter jogo de cintura para conviver num meio dominado pelo gênero masculino e ainda aceitar um salário inferior apenas por ter nascido mulher.

A cena que Thereza apresenta os funcionários da redação para a nova jornalista chega a ser tragicômica pra não dizer só trágica. A revista tinha temática feminina, se vendia como voltada para o público feminino, mas só contava com uma funcionária mulher. E além dos homens assinarem suas respectivas reportagens com nome de mulher, não sabiam absolutamente nada sobre aquilo que escreviam.

O que escrevia sobre culinária e gastronomia nunca tinha fritado um ovo sequer. Aquele que era responsável pela coluna sobre relacionamentos, pessoalmente orgulhava-se de ser um solteirão convicto e nunca teve um relacionamento sério na vida. E assim por diante.

Para fechar o quarteto principal, temos a personagem Lígia (Fernanda Vasconcelos), que é uma mulher que suprime seu talento musical para agradar o marido que abusava dela tanto psicologicamente quanto fisicamente. Das quatro mulheres ela é a que tem mais dificuldade de se libertar do papel designado para si e a que apresenta maior resistência ao próprio empoderamento.

Apesar de todos os empecilhos que encontram em seus caminhos, todas elas, às suas maneiras, mostram que a sororidade é algo não só possível, como também transformador. Não só na vida de mulheres, mas para a sociedade como um todo.

A ideia de união, companheirismo e principalmente empatia entre o sexo feminino é a principal mensagem que a série busca transmitir. Mais do que amigas, irmãs. É assim que podemos enxergar o quarteto no final da temporada.


Depois do sucesso de 3%, Coisa Mais Linda é mais uma prova de que ficção brasileira não perde em nada para produções estrangeiras. A série contém apenas 7 episódios num ritmo de narrativa bem ágil,embalados pelo som da bossa nova, estilo musical que estava em auge na época (principalmente no Rio de Janeiro), emoldurados por uma fotografia que nos faz mergulhar num túnel do tempo direto para o fim dos anos 50.

Muitas temáticas estão em voga nessa nova produção nacional da Netflix, mas a principal, aquela que une os dilemas do quarteto protagonista é, sem dúvida, o empoderamento feminino. Afinal, existe coisa mais linda do que uma mulher empoderada?

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