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Crítica | Shazam! Fúria dos Deuses

Crítica | Shazam! Fúria dos Deuses

Basta ser bom

É muito fácil visualizar o que há de especial no Billy Batson dos cinemas. Para além de sua popularidade absurda, que teve seu primeiro boost na primeira metade do século XX, é possível relacionar Shazam! (2019) à jovialidade e ao tom ameno e familiar tão escassos no universo DC dos cinemas até ali - ou para os íntimos, o DCEU. Por causa dessa importância, Batson (e seus familiares) também tem máxima valia: é imprescindível e urgente que boas adaptações cerquem o personagem, que já foi um dos maiores bastiões da DC nos quadrinhos e figura algumas das cenas mais importantes - e chocantes - da editora.Humor simples, suavidade e o eterno debate sobre qual o lugar de alguém no mundo norteiam a adaptação cinematográfica, lançada após anos muito difíceis para o fã da DC nas telonas. Até ali, uma avalanche de críticas que começaria em Batman vs Superman: A Origem da Justiça (2016) traria um mar de incertezas à essa tentativa de universo compartilhado. O tsunami atingiria o fracasso de Esquadrão Suicida (2016), Mulher-Maravilha (2017) existindo como uma exceção à regra, e ao dispensável Liga da Justiça, do mesmo ano, que foi justamente escorraçado. Aparentemente, ser fã da editora e esperar adaptações dignas e bem conectadas, coisa perceptível após uma leitura rápida de mercado, era pedir demais. Como resultado desse processo, o primeiro filme do nosso eterno "Capitão Marvel" terminaria como um filme simples, e até bem recebido por conta das atuações e apostas pequenas, mas inegavelmente tímido no que poderia propor por ser uma homenagem a um dos melhores personagens dos quadrinhos.

A sequência

O ano de 2023 mal começou e já trouxe muitas novidades. Recentemente, James Gunn e Peter Safran assumiram a direção do DC Studios, propondo um reset de linha do tempo após The Flash (que será lançado em junho) e uma conexão entre filmes, séries, animações e até mesmo games. Nesse contexto foi lançada a sequência do filme de 2019, Shazam! Fúria dos Deuses (Shazam! Fury of the Gods, no original; 2023), dirigido pelo mesmíssimo David F. Sandberg e também escrito mais uma vez por Henry Gayden, porém agora na companhia de Chris Morgan.Voltando à ação, Batson e sua família enfrentam as filhas de Atlas. Calipso, Anthea e Hespera, interpretadas respectivamente por Lucy Liu, Rachel Zegler e Helen Mirren, são adições que trazem boa dinâmica, mas pouca profundidade familiar em oposição. Foi perdida pelo filme a oportunidade de opor noções de família no diálogo, e em vez disso, foi novamente privilegiado o fanservice - que não é necessariamente uma coisa ruim, desde que implementado de forma orgânica, natural. O que incomoda é a insistência, que beira o formulismo.

Aquele filme

Fúria dos Deuses é aquele filme, sabe? A ordem dos fatores altera a avaliação quando a gente diz que é um filme meio mediano demais, mas que é ok. Em vários momentos era possível perceber a distância para que direção a cena vai se resolver. O roteiro de Gayden é tão sneaky e silencioso quanto um bloco de carnaval: piadas prontas e clichês transbordando navegam por diálogos que já vimos em algum lugar.E aí entra o critério: é possível ler como preguiça e comodismo... mas é ok. No fim das contas, o filme se resolve no seu próprio simplismo, em coisas extremamente batidas e Sessão da Tarde. Só que, às vezes, Sessão da Tarde era legal, né? O longa tem esse resgate. O que é batido, reconhecido por todos e de inovação quase nula, mas ainda assim segue desejável? Aqui, temos uma resposta. E embora pareça pejorativo, o fato é que é corajoso. É bravo um filme em 2023 se prestar ao papel de entregar o que é imaginável num mundo que discute se, diante de insucessos, os universos de filmes de super-heróis estão morrendo. Só por esse ponto, Fúria dos Deuses já superou seu original.

Vencer e... convencer?

Na mesma pegada do filme, as atuações, como dizemos no futebol, “vencem sem convencer”. Os destaques ficam para, primeiramente, Jack Dylan Grazer, que tem seu Freddy Freeman mais desenvolvido no filme, e ocupa o espaço do personagem sem movimentos muito bruscos. Depois, Faithe Herman mostrou camadas com sua Darla Dudley que surpreendem, na visão de mundo da personagem sendo tão excêntrica quanto perspicaz. Asher Angel e Zack Levi não precisam avançar com muito vigor, já que a zona de conforto era esperada em função do carisma de Batson. O humor de Djimon Hounsou em sua versão do Mago Shazam aqui é muito bem vindo, e traz um respiro diferente na medida em que há, com o perdão do trocadilho, uma magia no ator a ser descoberta.Já a trama de Fúria dos Deuses não é tão sortuda. Ela não é necessariamente ruim, mas flerta com a falta de criatividade diversas vezes e apela demais para clichês. Dá para falar até mesmo em beirar a displicência. De que adianta um acontecimento importante se ele é anunciado e previsto eras antes de acontecer, nos próprios diálogos entre os personagens? Oras, desde quando sair do óbvio não é mais uma obrigação quando se trata de filmes de super-heróis?Os pontos altos ficaram, primeiramente, na escolha criativa de uma cena interessantíssima de ação logo no início. Ela opõe a fragilidade do mundo humano à tenacidade das vilãs e faz isso muito bem. Depois, a escolha pela questão da identidade revelada de certos personagens aqui fica inocente, mas perderam a mão. Deveria haver uma preferência pelo uso de artifícios desse tipo usados de forma concisa e com função essencial ao enredo. O final do filme é de enorme semelhança a vários outros, em pleno 2023.

Uma árdua tarefa

Tecnicamente falando, o filme não cumpre com expectativas muito altas, entregues no trailer, e nem decepciona completamente. O CG é completamente regular e não chama a atenção que deveria. Além disso, a trilha sonora do filme - um dos principais atores de qualquer filme - é boa, mas está em segundo plano demais. Com um subtema familiar tão presente, trata-se de uma decisão estranha. Talvez, filmes deste espectro tivessem uma árdua tarefa subentendida: reinventar o diálogo nos filmes de super-heróis. Quando absolutamente nada é inesquecível no que se vê, com a quantidade de demandas e entregas atualmente, o que se conseguirá é a eventual indiferença.O que é inesquecível mesmo é o fato de esse filme conseguir te fazer sorrir apostando tão pouco. A sensação ao final do filme é boa, apesar de tantos problemas evitáveis. Resta saber qual vai ser a função de Billy Batson no novo universo DC que surge ao horizonte, para que possamos entender qual será o arco do personagem. Gunn tem falado em mantê-lo, o que não parece ser muito responsável se o assunto for contar uma história mais amarrada. O motivo é que Billy Batson pode cumprir com uma missão mais importante e relevante para o próprio universo do que Deadpool, que passa ileso por qualquer interação uni/multiversal na Marvel. É aguardar e curtir o bom - e apenas isso - filme de Sandberg.