Zack Snyder e o Amadurecimento da Figura do Herói

Zack Snyder levou figuras sagradas a ultrapassarem a perigosa linha moral. Até onde um herói deve ser humanizado e até onde ele deve ser construído apenas de ideais?

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Em uma transmissão do Vero, falando para fãs em um evento, Zack Snyder declarou que os fãs da DC precisam “crescer” com Batman v Superman e abandonar a ideia de heróis que jamais ultrapassam a perigosa linha da moralidade.

“É um bom ponto. […] É um bom ponto de vista pensar ‘Meus heróis ainda são inocentes’. […] ‘Meus heróis nunca cometeram nenhuma atrocidade’. Eu penso que isso é legal, mas você está vivendo em um mundo dos sonhos.”

 

Esse certamente não é um debate que pode ser encerrado com meia dúzia de palavras. Envolve muito mais do que mero “gosto” e nos leva de volta ao âmago da figura do herói.

Um pouco de mitologia

Na Grécia antiga, o herói era comumente representado como um ser atlético, dotado de força de vontade férrea, protetor da própria família, da própria terra ou até mesmo da humanidade. Esses heróis eram capazes de feitos absurdos. Como Hércules, que realizou 12 trabalhos impossíveis para ser perdoado por matar a própria esposa; ou Jasão, que viajou meio mundo num barco e sobreviveu a sereias, dragões, feiticeiras e afins, apenas para vingar a morte do pai pelas mãos de seu tio.

Os heróis eram aqueles que se opunham aos deuses e aos males do mundo.

Mas, apesar de serem a epítome da beleza, força e persistência, todos esses heróis tinham algo em comum:  até mesmo aqueles que carregavam uma parte divina eram, em essência, humanos. Ou como diria Nietzsche: demasiadamente humanos.

Sim. É isso mesmo.

Hércules assassinou sua própria família, tendo a deusa Hera usado sua própria fúria e sede de sangue contra ele mesmo. Jasão fez de tudo para vingar seu pai e ficar com a feiticeira Medéia, para no fim se tornar um homem tão cruel quanto o homem que matara seu pai. Orfeu, pobrezinho, levado pelo próprio amor desesperado, foi ao inferno buscar Eurídice e jogou fora todo o seu esforço quando olhou para sua amada, desobedecendo Perséfone, e morreu de tanta angústia. Aquiles, ébrio na altivez da própria invencibilidade, jamais se preocupou com seu calcanhar, o lugar por onde fora morto no fim das contas.

E assim nasceram os heróis: poderosos, imponentes, altivos. Mas falhos. Principalmente falhos.

Nos mitos gregos nunca eram os poderes dos heróis que ensinavam lições para os ouvintes, mas as falhas cometidas por eles.

O tempo passou, as culturas cresceram e figura do herói envelheceu. Ou melhor: evoluiu, amadureceu, modernizou-se.

A politização do herói

Um pouco antes da Segunda Guerra, durante e após a mesma, o herói (assim como o quadrinho de forma geral) se tornou uma ferramenta política, um artifício midiático para conduzir um determinado público a um determinado pensamento ou opinião.

Os EUA, até então os principais usuários da arte quadrinesca, alavancaram personagens já existentes e produziram novos. Todos com uma roupagem que desse vazão ao novo significado do herói: a incorruptibilidade.

Numa clara tentativa de mostrar sua superioridade em relação aos ideais desumanos do Nazismo, os Aliados investiram em figuras que representassem ética inabalável, completa intolerância para com o mal e, em alguns casos, ideais de preservação da vida humana, já que o mundo combatia monstros sem qualquer apreço à vida.

Os Aliados vencem a guerra. Os EUA explodem duas bombas nucleares no Japão, matando milhares de inocentes. O mundo finalmente solta a respiração e ficamos com a nova figura do herói: aquele que abandonou quase por completo sua natureza humana e falha; agora ele não mais desafia os deuses, pois é praticamente um deles.

Nos últimos 40 anos, vimos um processo de humanização em muitos personagens de quadrinhos. Demolidor, Justiceiro, Motoqueiro Fantasma, algumas histórias do Batman, Superman, Cavaleiro da Lua, Hulk e Homem-Aranha, para citar alguns, são exemplos muito claros disso.

Mas, muitas vezes, essas histórias não descem na goela de quem ainda gosta muito da visão messiânica de alguns heróis. E não há problema nisso. Ainda estarão lá as histórias em que os heróis representam valores às vezes completamente desassociados da nossa realidade cotidiana.

Agora, também há quem queira ver seus personagens favoritos enfrentando dilemas — e não apenas dilemas, mas consequências de escolhas erradas. Alguns querem vê-los passando pelo mesmo processo da fênix: caindo, derrotados, e então se reerguendo das cinzas.

Aprofundamento

Li muitos comentários sobre as falas de Snyder. Alguns diziam que “matar pessoas não traz profundidade ou complexidade a um personagem, não o torna maduro”. Em tese, matar ou poupar não trazem maturidade a um personagem. Tudo se trata de como isso será trabalhado.

A Vertigo (selo adulto da DC) está desconstruindo o gênero “herói” há anos. Watchmen, V de Vingança, Preacher, Hellblazer, para falar de poucos.

É disso o que se trata: abordagem.

Há décadas, Superman e sua galeria de vilões têm lutado em Metrópolis e destruído dezenas de prédios, praças e residências. Ou você acredita em um plano de evacuação via teletransporte ou aceita que centenas já morreram (ou no mínimo tiveram projetos, conquistas e bens destruídos) por conta de pura irresponsabilidade heroica.

Batman, em Gotham, está espancando vagabundos há bastante tempo. Quase nunca assassinou um diretamente, mas você pensa em um serviço especial de atendimento médico a criminosos feridos em fábricas, lojas, becos, tetos, porões e afins, ou você admite de uma vez que um cara com costelas quebradas, traumas em vários ossos e hemorragias variadas no meio da noite tem poucas chances de sobreviver. E Batman não bate devagar, vale ressaltar.

Conclusão

É um tanto simples: heróis matam, sempre mataram, direta ou indiretamente, por vingança ou por obrigação. Existem mortes, falhas e consequências embutidas na figura do herói desde seu nascimento e não há problema em ver isso sendo trabalhado. Só precisa ser feito de forma consciente.

Os fãs, por sua vez, precisam, além de amadurecer, deixar o egoísmo de lado. Há quem queira ver heróis em tela sendo representados com violência e drama. Enquanto isso for tratado como algo abjeto ou “coisa de outro mundo”, o meio nerd vai continuar sendo essa comunidade de lordes sentados em seus tronos, guerreando uns contra os outros sobre quem tem o melhor gosto: inclusive aqueles que batem o pé em favor da representatividade no cinema nerd — mas só até a página 2.

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