Campo do Medo | Adaptação decepciona, apesar de boa premissa

Campo do Medo apresenta uma premissa muito boa, contudo infelizmente não consegue desenvolvê-la como promete. É um exemplo de que ter uma boa ideia é diferente de saber abordá-la e, que dependendo da abordagem, uma boa ideia (ou até mesmo uma ótima ideia) pode se transformar num total desastre.

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Imagine a situação:

Você está passando de carro por uma estrada. De repente, ouve vozes vindo de um matagal abandonado. Reconhece se tratar da voz de uma criança que está pedindo por socorro. Ela está perdida no meio daquela imensidão verde e não consegue encontrar a saída.
Do outro lado da estrada, tem uma igreja que também está abandonada. Ao redor dela, vários carros empoeirados, de diferentes épocas (isso mesmo. Tem modelo dos anos 70, 80 e por aí vai..), estacionados. Você, obviamente, acha tudo muito estranho, mas não quer deixar o garotinho na mão. Por isso acaba entrando também, naquele campo de folhas altas, aparentemente inofensivo.

 

É nessa situação que os irmãos Becky (Laysla de Oliveira, atriz brasileira radicada no Canadá) e Cal ( Avery Whitted) se metem em Campo do Medo, adaptação para a Netflix  de um conto de Stephen King em parceria com seu filho Joe Hill, publicada originalmente na revista Esquire em 2012, sob o título em inglês “In The Tall Grass” (tradução: Na Grama Alta).

Em se tratando de uma adaptação de Stephen King as possibilidades são sempre infinitas

 

Mais uma vez fica provado o quanto Stephen King tem o poder de enxergar o potencial para o terror mesmo nos contextos mais simples (e até bobos) possíveis. Onde a maioria não veria nada fora do normal, King consegue captar possibilidades assustadoras, nos fazendo pensar que nada é só aquilo que parece ser. Tudo pode criar proporções grandiosas dependendo do nosso olhar para cada coisa.

Um simples matagal pode se transformar em um ambiente claustrofóbico que aprisiona pessoas e cria uma fenda temporal para movimentá-las pelo campo, gerando infinitas realidades e não permitindo que elas se libertem de lá, além de ter todo um passado histórico controverso envolvendo nativos americanos e uma mensagem de redenção religiosa por trás de tudo isso (o que explica o local ser próximo de uma igreja).

A aliança entre o elemento histórico e sobrenatural com os dilemas de ordem moral

 

Aliás, uma das características das obras de King é ter um elemento sobrenatural sem uma origem clara, a não ser pelo fato de ter tribos indígenas americanas envolvidas em sua criação, e uma metáfora sobre fé, autoconsciência e expurgação dos pecados como única chance de se salvar dos problemas que está enfrentando.

Em Cemitério Maldito temos o próprio cemitério ocupando o papel do fantástico sem origem definida. Em IT temos o mistério por trás da criação da coisa, e em Campo do Medo temos a pedra misteriosa que modifica quem a toca, interfere no espaço-tempo e tem o poder de saber tudo que acontece no matagal.

Em todas essas histórias têm seitas primitivas que viveram séculos atrás, sem que ninguém entenda de fato seus propósitos (pelo menos nas adaptações. Essa crítica não se refere aos livros.), apenas que deixaram um legado enigmático que gera um efeito desastroso.

Pontos falhos: Muita “mistureba” confundindo o expectador e superficialidade no desenvolvimento dos personagens

 

O problema é que em Campo do Medo tem essa “mistureba” histórica, sobrenatural, mística e de cunho religioso. E ela não funciona tão bem quanto nas outras adaptações citadas. É tanta loucura ( e nesse caso realmente não deu pra achar outra palavra que se encaixe melhor) junta, que dá a sensação pra quem está assistindo, de que está tão perdido no matagal quanto os personagens. Se o objetivo foi alcançar essa reação mesmo, então, estão todos de parabéns. É fácil perder a sanidade vendo esse filme.

São tantas linhas do tempo e realidades alternativas que passam a coexistirem, que acabam por tornar a trama cada vez mais confusa, precisando um pouco de paciência para entender a ordem de chegada de cada personagem e o tempo cronológico que está situado cada cena.

No final, essas questões se tornam um pouco mais claras e assistindo o filme pela segunda vez tudo se torna mais compreensível. Só que de primeira, parece um labirinto temporal sem lógica nenhuma.

Outro ponto falho é o desenvolvimento dos personagens e a relação entre eles. Além dos irmãos Becky e Cal, tem Travis (Harrison Gilbertson), o pai da criança que Becky está esperando, e uma outra família que se conecta a eles, formada por Natalie (Rachel Wilson), Tobin (Will Buie Jr.) e Ross (Patrick Wilson). Fica tudo na base do superficial e os diálogos são todos muito dispensáveis.

Talvez se tivesse flashbacks mostrando um pouco como era a vida deles antes de adentraram o matagal e assim, o filme não se passasse o tempo todo no mesmo cenário, como foi feito em Jogo Perigoso, pode ser que o roteiro fosse mais envolvente.

Ponto positivo: Escolha de Ross como influenciador radical

 

Um fator positivo no quesito personagem é a escolha de Ross pra ser o detentor da “sabedoria” da pedra por ele ter o perfil mais compatível com essa função (lembrando que é uma interpretação pessoal). Afinal, ele era corretor imobiliário, que é uma profissão que exige capacidade de persuasão e influência sobre as pessoas.

E além disso, antes de virar pai de família, Ross tocava em uma banda gospel. Como ele mesmo diz “pensava que eu, minha guitarra e Jesus dominaríamos o mundo”. O que leva a crer que ele já tinha predisposição a se tornar um fanático religioso e, como a pedra consegue ler a mente das pessoas, ela percebeu o potencial que tinha nele.

O conflito de Becky e a mensagem de redenção bem no estilo King

 

Outro fator que é interessante e ameniza um pouco as falhas aqui citadas é o conflito de Becky sobre dar a criança para adoção ou ficar com ela. O mesmo dilema que aparece logo nas cenas iniciais do filme é o mesmo que o encerra. Portanto, há uma ligação entre começo e fim.

Becky estava viajando com o irmão para San Diego, para entregar seu bebê para um casal criar. Porém, depois de tudo que passa no matagal incluindo a morte da criança, ao sobreviver (em uma linha temporal, pelo menos), mesmo que não saiba o que aconteceu nas outras realidades, ela desiste do que ia fazer e resolve ficar com sua filha.

O que pode significar que ela precisou enfrentar todas aquelas provações para não desistir de ser mãe, pois tudo aquilo foi necessário para fortalecer o vínculo dela com o bebê, deixar ela mais segura do que realmente queria e se perceber forte o suficiente para exercer a maternidade.

Chama atenção também o fato dela ter sido atraída para o capinzal através de um pedido de socorro de uma criança. Logo uma criança! Pedindo socorro! Como se fosse a representação da criança que ela ia dar pra adoção pedindo ajuda pra ser salva por ela.

Nada nas obras de Stephen King está ali por acaso. Tudo tem um simbolismo e uma metáfora por trás, então, pode ser que essa interpretação faça sentido (ou não).

Da mesma forma, Travis também se arrepende de ter falado pra ela abortar, reforçando a mensagem de redenção do filme. Só merece uma segunda chance quem se redime perante seus pecados. E por isso, eles mereceram uma nova chance na vida, mesmo que em apenas uma linha do tempo.

 

Muita promessa pra pouca entrega!

 

Campo do Medo apresenta uma premissa muito boa, contudo infelizmente não consegue desenvolvê-la como promete. Cria uma expectativa que é frustrada ao se transformar do meio pro fim em um filme de mera perseguição. Nele, o vilão Ross fica correndo atrás dos personagens de um lado pro outro para matá-los. O motivo? Não conseguir convencê-los de tocar na pedra.

Esse filme é um exemplo de que ter uma boa ideia é diferente de saber abordá-la. E que, dependendo da abordagem, uma boa ideia (ou até mesmo uma ótima ideia) pode se transformar num total desastre.

(Lembrando mais uma vez que isso é uma crítica à adaptação somente. Talvez no livro a ideia tenha sido abordada melhor.)

Versão "Rise" 5.0.1 beta - Crafted with ❤ by @mattzbarbosa
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