Revisitando O Retorno de Jedi – o primeiro final de Star Wars

Com o fim da saga Star Wars agora em 2019, aproveitamos para revisitar o capítulo final da primeira trilogia (a clássica): Episódio VI - Retorno de Jedi, um filme costumeiramente subestimado e desprezado pelos fãs de Star Wars.

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Revisitando O Retorno de Jedi

Star Wars vai acabar. Desta vez, em definitivo. A saga original, protagonizada pelos Skywalkers, conta a história da época do fim da República. Além disso, aborda ainda a ascensão do Império e sua derrocada. Isso sem falar do surgimento da Nova Ordem e seu também provável fim.

Com o fim da saga nessa semana, que tal revisitar o primeiro final de Star Wars, ocorrido no já longínquo 1983, quando Star Wars: Episódio VI – O Retorno de Jedi (Star Wars: Episode VI – Return of the Jedi) foi lançado nos cinemas?

O cenário de fundo

O Império Contra-Ataca, dado por muitos como o melhor filme da saga até hoje, havia sido lançado três anos antes. O título havia conseguido o até então improvável feito de superar o choque causado em 1977 por Uma Nova Esperança (até então chamado apenas de “Star Wars”).

Lembrando que este filme mudou o mundo como o conhecemos, em um movimento que começou dois anos antes com Tubarão (Jaws – 1975) de Steven Spielberg, naquilo que é considerado pelos estudiosos da sétima arte como o estabelecimento do formato “atual” e “moderno” do cinema como movimento cultural, industrial e de entretenimento (mais sobre isso clicando aqui).

Para a então conclusão da saga, em 1983, George Lucas, que havia trazido o bom Irvin Kershner para dirigir o segundo filme (Episódio V), contratou o galês Richard Marquand para a direção.

O roteiro ficou a cargo do excelente Lawrence Kasdan. Tratava-se do mesmo do filme anterior e de outro sucesso lançado antes, Os Caçadores da Arca Perdida (Raiders of the Lost Ark – 1981).

Produtor, diretor e roteirista chegaram a um acordo sobre o Episódio VI: ele seria a antítese do anterior, que era soturno e derrotista, o que nos lembra da estrutura de ternário das peças de teatro que Lucas levou para a saga.

Nele, o segundo ato é, classicamente, o das maiores dificuldades dos protagonistas. Já no terceiro e último ato eles costumam se recuperar e triunfar diante dos obstáculos apresentados.

O Retorno de Jedi, portanto, traria a luz de volta à galáxia. Sem contar que mostraria a derrocada do Império, e não deixaria pontas soltas na história. Tudo seria esclarecido e a história finalizada.

O Retorno de Jedi – O primeiro final de Star Wars

O nome em português conseguiu a proeza de tirar a dubiedade do título original. Trata-se do fato de que o título pode ser aplicado ao singular ou plural, a Luke ou Vader. Ou ambos.

Algo que se repetiu recentemente na tradução do título do Episódio VIII, diga-se.

Enfim, na então conclusão da saga da Força, vemos Luke, Leia, Chewbacca e Lando no resgate de Solo. E isso na mesma Tatooine do primeiro filme.

Se antes o lar de Luke era um luminoso sinal de um porvir de esperança, agora ele se mostra uma continuação do tom dado a Império Contra-Ataca: sombrio, ameaçador e desesperançoso. Todo esse ar amargurado se materializa em Jabba, sua decrépita fortaleza e seus súditos asquerosos.

Nesse primeiro ato, vemos o novo Luke Skywalker, a “nova esperança” do filme original, totalmente mudado. Não mais o adolescente imaturo e sonhador que conseguiu explodir a primeira Estrela da Morte. E nem o birrento, imediatista e esquentado padawan. Alguém que desobedecia Yoda em Dagobah e partia em um resgate desmedido e improvisado à Cidade das Nuvens.

Não.

O Jedi

Luke agora é (quase) um Cavaleiro Jedi. Estrategista, calmo, sereno, senhor de si, ciente de seus poderes e de seus objetivos.

O resgate em Tatooine se mostra bem sucedido, e a segundo parte do filme conta com interlúdios – como em Dagobah, para que possamos nos despedir de Yoda e saibamos toda a verdade sobre a família Skywalker – antes do ataque final ao Império.

Vem então o ato final. Nele, a narrativa, em uma tacada magistral do roteiro e da produção, divide-se em incríveis três linhas. Uma inversão conceitual de um clímax narrativo clássico, quando as várias possíveis ações normalmente convergem para uma única, no final.

São elas: o ataque da frota rebelde à segunda Estrela da Morte, o assalto ao gerador do escudo em Endor e o catártico confronto de Luke contra Vader e o Imperador, finalmente apresentado em carne, osso e vilania.

Design de Produção

Indicado ao Oscar de melhor direção de arte, o filme prima realmente por todo seu design de produção, o nome atual da categoria. A Academia tem uma certa aversão à ficção científica e aos blockbusters, isso é fato. E O Retorno de Jedi não levou a estatueta, a despeito de cenários tecnicamente fantásticos (por exemplo, podemos citar a sala do trono do Imperador e o palácio de Jabba). Sem contar, ainda, os figurinos maravilhosos (característica da saga, diga-se), a belíssima edição e a montagem irrepreensível.

Fora as sequências visuais brilhantes – e impressionantes – como essa abaixo (aprecie o timing perfeito e a plasticidade visual da parte em que a Falcon retorna ao túnel, com a explosão ao fundo, a 01:37’):

Os já citados cenários serviram de inspiração a muitos cineastas. Desde o Episódio VI, eles ficaram impactados principalmente com as sequências entre Vader, Luke e o Imperador na Estrela da Morte.

Com uma fotografia maravilhosa, cenas como a chegada de pai e filho à presença de Palpatine, incluindo a subida na escada que leva ao trono – e que dá a dimensão física do tamanho do obstáculo que Luke tem em Vader – ou a épica cruzada de sabres a centímetros do rosto do Imperador, marcaram o cinema e mereciam mais reconhecimento.

Revisitando O Retorno de Jedi
o cenário obra-prima Sala do Trono

Os apuros técnicos foram tantos, inclusive, que o próprio Lucas teve dificuldade de chegar ao mesmo patamar na segunda trilogia. E isso a despeito de ele próprio ter dirigido as três prequências (Episódios I, II e III).

Inovação histórica

Star Wars é um marco histórico do cinema e da cultura pop ocidental como um todo, conforme supracitado.

Junto com Tubarão, Star Wars revolucionou o cinema e o transformou no que é hoje.

Fora as questões extra-filme (como o licenciamento de produtos), a saga se notabilizou por trazer inovações estéticas, conceituais e técnicas ao cinema mainstream. Hoje, elas formam basicamente o padrão adotado em Hollywood.

E já que estamos revisitando O Retorno de Jedi, convém citar um exemplo prático dessas inovações. Ela se dá nos efeitos especiais com fundo azul criados para Uma Nova Esperança. Ou, ainda, na tridimensionalidade inédita conseguida na sequência do campo de asteróides em Império Contra-Ataca.

E em Retorno de Jedi tivemos mais uma inovação. Apareceu, enfim, o uso emblemático da filmagem em menos que os convencionais 24 quadros por segundo. A razão? Dar sensação de velocidade, usado na sequência das speeder bikes na floresta – sequência que ainda por cima notabilizou o uso das steadycam (câmeras com giroscópios) no cinema.

Revisitando O Retorno de JediLuke escondido de Vader embaixo da sala do trono

Outras partes do filme levaram anos – ou décadas – para terem seu lugar reconhecido na prateleira dos momentos memoráveis de Star Wars. Uma cena em especial costuma passar batida até para os fãs mais ardososos. Trata-se do momento em que Vader tenta descobrir onde Luke está escondido, no pavimento abaixo do trono de Palpatine.

A sequência, passada logo após Vader derrubar a passarela suspensa onde estava o jovem Skywalker, mostra o pai caminhando em um local escuro e cheio de pilastras de sustentação. Isso para tentar desestabilizar emocionalmente o filho para que ele acusasse sua localização.

Enquanto isso, vemos Luke lutando para se manter frio e longe do alcance dos poderes de Vader.

Ocorre que, quando o Sith dá a cartada final, mencionando Leia, Luke não se aguenta e parte para a luta novamente.

E o que vemos então é que ele estava a pouquíssimos metros de seu pai. Como então Vader não viu Luke ali, praticamente ao seu lado?

Elucidando a questão

A resposta é que Luke estava usando seus poderes Jedi. E o objetivo era, digamos assim, se camuflar em meio ao cenário e à escuridão do local. Nada muito misterioso para os fãs mais aprofundados, mas uma informação “nova” para os não tão familiarizados com a Força (ou os próprios fãs, na época).

Essa habilidade, anos depois, recebeu na literatura de Star Wars o nome de Force Cloak. Com muita concentração e força de vontade (além da necessidade de estar imóvel), ela cria um manto de invisibilidade temporário ao redor.

Vader não conseguia localizar o filho através da Força de maneira usual. Então, instigava-o a emanar sentimentos de medo e insegurança para facilitar o rastreio. Ou, então, a se revelar fisicamente, para poder continuar o duelo.

Fora, claro, a intenção dele de provocar Luke para fazê-lo sentir cada vez mais rancor e ódio, já que ainda existia o objetivo de levá-lo para o lado obscuro da força. Mas, até se revelar, o jovem Jedi conseguiu passar despercebido diante do pai, mesmo estando muito perto dele.

Um pequeno detalhe curioso em uma obra grandiloquente e “explosiva”, mas que agrega ainda mais preceitos técnicos ao filme que sempre foi relegado perante os demais da saga.

Ewoks… e daí?

Sim, temos os Ewoks. Os famigerados Ewoks. O “ponto fraco” do filme (e da saga, até então, segundo seus detratores).

A muleta utilizada por muitos para denegrir todo o excelente Episódio VI. Como se a presença dos “ursinhos” fosse capaz de obliterar todo o apuro técnico restante da obra, tanto da direção, quanto da produção (incluindo o roteiro).

“Ah, mas é impossível que os pré-históricos peludos conseguissem vencer as tropas imperiais apenas com pedras, flechas e lanças!” bradam os críticos anti-Retorno de Jedi.

As metáforas de George Lucas

Vamos jogar um pouco de luz nessa questão.

Os Ewoks em Endor e sua vitória contra o Império são uma metáfora da então não distante Guerra do Vietnã. Nela, os EUA se jogaram na selva asiática com a certeza de que derrotariam os pobres e mal armados Vietcongs. E eles em tese não teriam como aguentar mais do que alguns meses, contra a mais poderosa e bem armada máquina de guerra do planeta.

Pois, para assombro do mundo todo (inclusive do “Império”, se é que me entendem…), a resistência durou vinte, isso mesmo, vinte anos. E para completar, terminou com vitória dos locais sobre os invasores, que chegaram a ter o dobro de homens. Eram mais de 1.400.000 soldados dos EUA, Vietnã do Sul e outros aliados. E isso contra cerca de 800 mil soldados que lutavam pelo Vietnã do Norte. Além de um poder de fogo quase quatro vezes maior.

Revisitando O Retorno de Jedi armadilha vietcong
armadilha vietcong que inspirou as armadilhas ewoks

É consenso que o conhecimento e a consequente adaptação ao território, clima, insetos e doenças, a capacidade de lutar com armas brancas e fazer emboscadas e armadilhas, e principalmente a tática das guerrilhas foram os motivos que levaram ao inacreditável desfecho, onde os “pré-históricos” Vietcongs conseguiram vencer a tecnologia e o imenso poder de fogo adversário.

Notam a similaridade?

E isso porque não levantamos a questão de que os Ewoks não venceram sozinhos as tropas do Império. Na verdade, se juntaram aos soldados rebeldes que lá estavam, além do grupo de assalto liderado por Solo e Leia.

Difícil, mas não impossível

Como se vê, ainda que improvável, a vitória dos “ursinhos” é plausível, e tem paralelo na história real humana. Um episódio marcante de nossas guerras que inspirou Kasdan a roteirizar a simbólica derrocada imperial em Endor. E isso segue uma tradição de Star Wars de apresentar metáforas de acontecimentos reais.

E isso se vê inclusive em entrevistas, onde George Lucas cita os ex-presidentes americanos Nixon e Bush como fontes de inspiração para Palpatine. Ou toda a gama de aspectos importados dos regimes ditatoriais nazista e comunista para a personificação do Império, dentre outros.

E agora que você já sabe que não é um absurdo (é um absurdo, ok… mas factível) o feito dos Ewoks, que tal se libertar desse rancor todo e curtir o Episódio VI em toda sua plenitude? 🙂

Três linhas de ação

Como citado nos tópicos iniciais, Retorno de Jedi inverte a ordem comum das linhas de ação de uma narrativa.

Normalmente vemos tramas paralelas convergindo em uma linha única de ação, quando chegamos ao clímax de uma história. No desfecho da trilogia original, temos uma quebra memorável de paradigma de técnica cinematográfica. A história se dividiria em três frentes e avançando assim até sua conclusão.

Para se ter uma ideia do quanto isso é incomum, o único outro exemplo consensual de algo parecido se dá em Senhor dos Anéis. O filme fecha a trilogia que adaptou a obra de J. R. R. Tolkien para as telonas, e tem algo parecido com relação às linhas de ação da sua narrativa.

Difícil lembrar de alguma outra obra marcante que também adotou esse caminho.

A escolha, extremamente ousada, poderia levar a uma confusão por parte dos espectadores. Ou mesmo a uma fadiga pelo excesso de informações por trazer, na prática, três clímax.

Mas o roteiro na medida e a direção certeira de Marquand garantiram que nada soasse exagerado. As três conclusões quase simultâneas alternaram pequenos intervalos, garantindo a escalada de sensações até a explosão da arma de destruição em massa do Império.

Final apoteótico

Retorno de Jedi trouxe ao grande público o primeiro grande despecho de uma “franquia” no cinema. Nas então maiores bilheterias da história, o final da saga dos Skywalkers foi um acontecimento único e épico.

As tais três linhas de ação culminaram juntas em uma conclusão jamais vista antes. Ela trouxe as primeiras grandes manifestações de fãs in loco nos cinemas — as hoje comuns transformações das salas de exibição em “arquibancadas de futebol”.

Depois do ritmo frenético mostrado nas conclusões citadas, o filme finalmente respira enquanto prestamos reverência a Anakin Skywalker, redimido após matar o Imperador. Era a força motriz que impulsionou todos os acontecimentos da saga e que comandava o Império Galático. Bem… pelo menos até agora e enquanto o Episódio IX não estreia…

Estava cumprida a profecia a respeito do equilíbrio na Força. Profecia essa explorada de forma onipresente anos depois, na trilogia prequela.

A catarse trazida entre os embates de Luke contra os dois Sith – primeiro psicológico, depois físico – ampliada pela sequência do ataque final das naves lideradas por Lando no interior da Estrela da Morte (mais sobre isso abaixo), teve na cena da cremação de Vader o desfecho perfeito e poético.

Depois disso, vemos a celebração da vitória. Originalmente tímida, a cena foi ampliada na edição especial com as mexidas de Lucas. Ela mostraria toda a galáxia comemorando a queda de Palpatine.

Luke, então, contempla os fantasmas da Força de Yoda, Obi-Wan e… seu pai, por ele salvo, finalmente. A tela escurece e a música grandiosa de John Williams testa a capacidade de impedirmos as lágrimas de caírem.

Para quem viveu isso no cinema, é algo inesquecível e inigualável.

Conclusão

O Retorno de Jedi foi o primeiro “final” de Star Wars, antes de A Vingança dos Sith (Star Wars: Episode III – Revenge of the Sith – 2005) e, agora, de A Ascensão Skywalker.

Costumeiramente subvalorizado, em boa parte por conta da ojeriza causada pelos Ewoks, o filme é tecnicamente do mesmo nível de Império Contra-Ataca. O final é apoteótico – amparado em uma narrativa multidividida em seu clímax, algo absolutamente incomum – e ainda contou com a vantagem da catarse trazida pela então conclusão da saga, algo que o filme anterior não tinha.

Injustamente relegado a posições mais baixas nos costumeiros rankings de preferências dos fãs, O Retorno de Jedi é até hoje o desfecho perfeito da trilogia clássica. Tecnicamente soberbo e emocionalmente, para os fãs, inigualável.

Revisitando O Retorno de Jedi

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